Sabe quem criou a popularidade do Superman?

O Super-Homem de García-López, no Guia de estilo da DC Comics de 1982. Esses dsesenhos retrô são usados até hoje em diferentes produtos. Desde então, ele criou novas versões, mais modernas (Foto: Divulgação)

 José Luis García-López: o artista que popularizou o Super-Homem!

O argentino José Luis-García López foi para os Estados Unidos em 1974, tentar a sorte nas editoras de quadrinhos americanas. Teve sucesso: seu traço elegante virou referência entre artistas de diferentes gerações (Foto: Divulgação)

O argentino José Luis-García López foi para os Estados Unidos em 1974, tentar a sorte nas editoras de quadrinhos americanas. Teve sucesso: seu traço elegante virou referência entre artistas de diferentes gerações (Foto: Divulgação)

O argentino José Luis García-López é autor das ilustrações mais reproduzidas do Super-Homem, Mulher-Maravilha e outros heróis da DC Comics.

Seus desenhos aparecem em brinquedos infantis e nas camisetas usadas por Sheldon Cooper, do seriado “The Big Bang Theory”.

Considerado um mestre das histórias em quadrinhos, ele relembra os primeiros anos de carreira e conta como ajudou a reinventar alguns dos mais importantes super-heróis

 

Você conhece o trabalho do desenhista José Luis García-López desde que era criança. Talvez, inclusive, já tenha até comprado algumas de suas ilustrações.

 

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Argentino, Garcia-López fez sucesso na indústria dos quadrinhos americana quando, no início dos anos 1970, começou a desenhar histórias do Super-Homem para a DC Comics, a editora responsável por publicar as aventuras do herói. Seu traço elegante, elogiado pelos fãs, chamou a atenção do diretor editorial Joe Orlando.

No início dos anos 1980, Orlando tornou García-López responsável pelo Guia de estilo da DC – um manual com ilustrações dos principais heróis da editora, como Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha.

Guia de estilo orienta empresas do mundo inteiro sobre como usar as imagens desses personagens em produtos diversos. Traz prontos os desenhos que serão aplicados em lancheiras, cadernos, camisetas.

O sucesso da DC no ramo de licenciamento de produtos (em 2012, a empresa faturou mais de US$6 bilhões na área) fez essas imagens se espalhar pelo mundo. E os desenhos criados por García-López viraram a principal referência no imaginário dos consumidores e fãs: “Vejo meu trabalho por todo lado”, diz García-López. Você também: eles estão no pijama de super-herói usado pelo seu irmão mais novo e nas camisetas usadas por Sheldon Cooper, do seriado The Big Bang Theory.

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Com 40 anos de carreira, García-López é modesto ao falar do próprio trabalho. Os fãs o tratam com reverência. Em fóruns sobre quadrinhos na internet, criaram uma forma pomposa para se referir ao artista: “José Luis García-López – louvado seja seu nome”, escrevem. Garcia-López não se envaidece: “Isso deve ser uma piada”.

García-López virá ao Brasil para participar da Comic Com Experience, conferência sobre quadrinhos que ocorrerá entre os dias 4 e 7 de dezembro no Centro de Convenções Imigrantes, em São Paulo. Em depoimento a ÉPOCA, falou sobre a infância na Argentina e do trabalho na DC.

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“Eu nasci na Espanha, mas, quando tinha 4 anos e meio, fui levado para a Argentina pelos meus pais. Foi lá que começou meu interesse por histórias em quadrinho. Quando criança, aprendi a ler através delas. No início, lia O Pato Donald. Eu adorava. Quando fiquei um pouco mais velho, descobri os quadrinhos de super-herói. Eu era fã do Batman. Mas eu estava amadurecendo.

Naquela época, lia mais o material produzido na própria Argentina, feito por Alberto Breccia. Mas tinha contato com os grandes artistas e as grandes histórias feitas nos Estados Unidos, que chegavam através dos distribuidores como o King Features Syndicate.

Minha carreira como desenhista começou quando eu decidi que era isso o que eu queria fazer. No momento que decidi que seria um artista, passei a fazer meus esboços e a levá-los para as diferentes pequenas empresas que havia em Buenos Aires. Meus pais não se opuseram. Eu tinha algumas opções – eu podia estudar, ou podia trabalhar.

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Não gostava tanto de estudar, por isso experimentei trabalhar. E meus pais me deram bastante apoio nessa decisão. Eles me deixaram ir, me deixaram fazer as coisas que eu queria fazer. Meu primeiro trabalho foi publicado quando eu tinha 14 anos. Tenho bastante vergonha dele porque copiei muito do estilo de outro artista argentino.

Antes de começar a trabalhar para companhias importantes na Argentina, a editoria Columba, eu comecei a fazer alguns trabalhos para um agente que trabalhava aqui em Connecticut. Fiz algumas pequenas histórias. Nove ou dez. Acho que elas me ajudaram, depois de já ter feito vários trabalhos na Columba, a tomar coragem para tentar a sorte nos Estados Unidos, e ver o que acontecia.

Foi quando decidi vir para cá, no final de 1974. E tive muita sorte porque consegui trabalho logo de saída. Quando eu cheguei aos Estados Unidos, tinha um endereço a ir: a DC Comics. Mas não consegui encontrar o prédio. Me disseram que eles tinham se mudado para o Rockfeller Center, e eu não sabia que o Rockfeller Center era um complexo de muitos edifícios. Telefonei para um artista argentino que vivia aqui há mais tempo que eu, Luis Dominguez. Pedi ajuda. Ele me falou para esperar, porque também viria a Nova York para visitar as editoras.

Dominguez me levou para a Western Publishing Company, onde consegui um roteiro para ilustrar. Levou-me até a DC, onde consegui outro trabalho – a colorização de uma história do Clark Kent. Por fim, ele me levou até a Marvel, e perguntou se eu queria uma indicação para trabalhar ali. Eu recusei: já tinha muito trabalho a fazer.

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O Super-Homem de García-López (Foto: Divulgação)

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Eu tive muita sorte com a DC. Passei a maior parte da minha vida trabalhando para eles porque eu gostava das pessoas. O ambiente era muito amigável. Todo o trabalho estava concentrado em Nova York. Estavam aqui as editoras de quadrinhos, os escritores e artistas dessa indústria. No geral, você recebia o roteiro, ia para casa e desenhava.

Naquela época, eu costumava ir à DC umas duas vezes por semana. Algumas vezes eles sugeriam algumas alterações simples, que eu fazia ali mesmo, no escritório. Mas a maior parte do trabalho, quase todo ele, era feito de casa. Foram bons tempos. Mesmo recém-chegado, não tive dificuldades para me adaptar. Eu viva razoavelmente bem, até conseguia economizar algum dinheiro.

Foi então, na década de 1980, que a empresa-mãe da DC, a Warner Brothers, teve a ideia de criar o Guia de estilo da editora. Na época, eles estavam trabalhando na criação dos guias de estilo para seus personagens animados, como o Pernalonga. O primeiro guia de estilo da DC, publicado em 1982, foi pensado tomando como modelo aquele, feito para os personagens de animação. Até o formato era o mesmo.

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Basicamente, o que queriam no Guia de estilo era encontrar um traço que prevalecesse. Naquela época, sempre que precisavam de uma ilustração para um cliente – uma marca de camisetas, por exemplo –  eles precisavam fazer algo novo. Às vezes, o próprio cliente encontrava um ilustrador que fizesse o desenho.

O resultado é que havia centenas de versões do Super-Homem, do Batman, do Flash, da Mulher Maravilha em produtos diversos. Isso acontecia porque cada artista desenhava de uma maneira própria. Vou te dar um exemplo: hoje, nós temos o Super-Homem do Jim Lee. Temos também o Super-Homem desenhado pelo Adam Hughes. Os dois são ótimos. São muito talentosos, são grandes artistas. Mas cada um vai chegar a um resultado diferente. Uma leitura diferente para o personagem. Porque cada artista desenha seguindo um estilo diferente. Para o guia, eles queriam um estilo único para retratar os personagens nos produtos licenciados.

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O Guia de estilo da DC - a bíblia de referências de como os personagens da casa devem ser retratados (Foto: Divulgação)

O Guia de estilo da DC – a bíblia de referências de como os personagens da casa devem ser retratados (Foto: Divulgação)

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Joe Orlando era o diretor de arte desse projeto. Eu não sei porque me escolheram para o trabalho. Não sei se eles fizeram um ranking entres os artistas ou qualquer coisa. Para mim, isso nem importa. Naquela época, a única coisa que sabia é que os fãs gostavam da minha versão do Super-Homem. Mas eu não prestava atenção especial àquilo. Eu procurava ficar atento ao trabalho de maneira geral, porque buscava fazer o meu melhor. Mas acho que era no meu Super-Homem que Joe Orlando estava interessado. Por isso me escolheram.

O trabalho é difícil porque se trata de pensar numa série de poses nas quais os personagens vão aparecer. Por causa disso, você não pode incluir muitos detalhes. Você não pode inventar nada novo. Para o Guia de estilo, e para os trabalhos que faço para licenciamento, acho que sou um bocado prático. Eles me pedem 10 poses do Super-Homem. Uma voando, a outra dando um soco…enfim. Crio três ou quatro versões de cada pose. Em nenhuma delas eu incluo muitos detalhes.  Então envio tudo para os editores, de modo que possam escolher entre os rascunhos. Às vezes, pedem uma correção aqui, outra ali. Ou pedem que eu inclua algo,faça algo diferente. Mas é muito difícil inventar novas poses, que os fãs nunca tenham visto.

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Ao desenhar, eu seguia algumas linhas mestras definidas pela DC. Ao longo dos anos, mudaram os diretores de arte encarregados da parte de licenciamento de produtos e, hoje, a maior parte do material vem da Warner Brothers. Eles já sabem exatamente o que querem fazer. Às vezes, cometem erros, acho. Mas eu imagino que eles saibam melhor que eu o que os consumidores querem (risos). Porque, no fim, todo esse trabalho está baseado no cliente. Os desenhos vão ser usados por uma marca de camisetas, por uma empresa de brinquedos, enfim…

O resultado é que eu vejo o meu trabalho por todo lado. Quando eu vou ao supermercado, quando eu entro em uma loja. Meus desenhos estão nas lancheiras, em caixas, camisetas, nem sei mais. Em todo lugar. Os desenhos daquele guia de 1982 continuam a ser usados. Isso acontece, acho, porque as roupas das crianças são escolhidas pelos pais. E, naquele guia, nós chegamos a um design muito leve, muito alegre. Até o Batman aparece sorrindo.

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Em dezembro, a editora Marsupial lançará o terceiro volume de sua série sobre mestres dos quadrinhos. A edição será dedicada a García-López (Foto: Divulgação)

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O projeto começou nos anos 1980, mas eu continuo a fazê-lo anualmente. Foi um trabalho muito interessante, e muito bem pago. Ainda é muito bem pago, porque continuo a fazer trabalhos para diferentes Guias de estilo da DC. Às vezes, antes que eu faça meus rascunhos para serem aprovados, eles me enviam material dos quadrinhos novos, recém-publicados, para que eu use como base para o meu próprio trabalho.

Isso não costumava acontecer há alguns anos. Mas agora o marketing presta atenção a tudo que é publicado. E, toda vez que veem algo que captura a atenção, pedem que eu faça. Por isso algumas poses não são trabalhos originais meus, mas um retrabalho sobre a criação de outro artista. O primeiro Guia de estilo foi aquele em que tive maior liberdade para fazer o que eu queria fazer

Nunca prestei muita atenção à projeção do que eu estava fazendo. Só nos últimos anos, graças às mídias sociais, é que eu entendi que ainda tinha fãs. Eu me sinto bem com isso, além do fato de que não esperava toda essa atenção. De maneira geral, é um sentimento gostoso. Já ouvi falar que os fãs me chamam de lenda. Mas, oras, francamente.

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Eu não costumo pensar muito sobre isso. Eu apenas faço meu trabalho. Faço algo de que gosto e tento fazer tão bem quanto posso. Essa coisa de me chamarem de ‘lenda’ é uma piada. Imagino que seja só uma piada.

Não levo muitas memórias desses 40 anos trabalhando com quadrinhos. Fui muito sortudo em minha carreira. Quando eu era um ‘garoto’, algumas vezes eu não era pago. Ou tinha de ir atrás dos editores para conseguir o dinheiro. Mas isso foi há muito tempo.

Eu não era realmente um desenhista profissional na época. Quando passei a trabalhar para grandes estúdios, profissionalmente, isso deixou de acontecer. Tive muita sorte de, durante a minha carreira, conhecer ótimas pessoas.

Também nunca pensei em como esses 40 anos mudaram o traço dos meus desenhos. Acho que você muda sua visão de como desenhar da mesma forma que muda sua visão sobre a vida. Acontece por etapas, sem que você se dê conta. Você nunca pensa nessas mudanças. Só espero que eu seja um artista melhor hoje do que era há 40 anos.”

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Carlos Damasceno

Carlos Damasceno é desenhista profissional e professor de desenho. Especialista em ajudar pessoas a desenvolverem o seu talento para o desenho sem precisarem pagar por curso caros e demorados.

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